3 de maio de 2013

A Cronologia da Água


Eu li esse livro em três dias. Não consegui largar.

Esse livro é sobre a vida da autora. 
Roland Barthes já afirmava que a partir do momento em que foi escrita, uma história adquire vida própria. Não pertence mais ao autor, nem pode ser considerada como meio transmissor da verdade absoluta. Lidia Yuknavitch, em meio à perguntas sobre o que seria essa tal "verdade", por meio da neurociencia descobriu que nosso cérebro de fato realiza esse caminho. Quanto mais você conta uma história, menos realidade e mais ficção ela adquire. As lembranças mais reais são aquelas das pessoas que não se lembram de muitas coisas.

Mas nessa linha fina entre a ficção e a realidade, entre o sonho e o que chamamos de vida, é que o espaço se ocupa de interligar o eu com o outro. Por meio de sua história, a autora fala da vida de todos nós.

“I’ve never met anyone who hasn’t fucked up in their life a time or two. Royally. I’m pretty sure that’s what keeps us connected to one another. Not so much the superhuman savior stories. It’s called being human. It’s the energy and matter. Words let us say that. Language! What a thunderous mercy, huh?”


Desde a primeira linha que tocou meus olhos, eu lembrei.
Lembrei de como a natação também sempre foi presente em minha vida. Da história do meu pai, que competiu a vida inteira e nunca abandonou as piscinas, mesmo depois do meu avô o ter convencido a voltar dos Estados Unidos para o Brasil e consequentemente desistir do sonho das Olimpíadas. Esse fato possibilitou que ele fizesse faculdade aqui e conhecesse minha mãe e se casasse com ela e tivesse eu, minha irmã e meu irmão.

Lembrei que esse amor pela água foi transferido para mim. Tinha a piscina de plástico da nossa casa em Portugal, onde eu adorava entrar a qualquer momento, mesmo de roupa. Tinha a piscina da minha primeira escola de natação, com níveis de aprendizado, cada um com nomes como "robalo", "lula" e "arraia", e a cada nível que você atingia, ganhava uma figurinha do animal para colar numa espécie de álbum que eles distribuíam. Tinha a piscina do clube que visitávamos aqui no Rio, sempre ensolarada e gigante e amedrontadora às vezes. Tinha a piscina da minha outra escola de natação, com teto móvel que em dias de sol ficava aberto e uma parede alta, enorme, pintada com uma cena do fundo do mar com orcas e tartarugas gigantes. Tinha a piscina do meu primeiro prédio em São Paulo, gelada e funda. Tinha a piscina do meu segundo prédio, com uma divisória entre a parte rasa e a funda, onde eu passava a maior parte dos meus verões. Tinha a piscina da minha escola de natação aqui no Rio, rasa, pequena e um pouco fria. E mais uma vez a piscina do clube, com uma camada visível de fumaça nas noites escuras e frias de inverno por causa do aquecimento. Apaixonantes. Todas.

Eu lembrei de como todo o meu sentimento de inadequação em terra sempre se esvai na água. Da sensação de peso que inexiste, levar a vida se torna fácil. Lembrei da visão que parece um sonho quando estamos embaixo da água e da ausência de vozes identificáveis, só os ruídos misteriosos. De como existem poucas sensações comparáveis a estar sozinha, no silêncio, apenas você e seu corpo, na água.

“In water, like in books - you can leave your life.”

E lembrei das histórias do corpo. De como há mil maneiras de se viver e de como nossa memória é falha, mas nosso corpo revela as marcas e cicatrizes do que passou. Nosso corpo é quem realmente vivencia, e ainda assim, as vezes somos tão desconexos dele.

Lembrei de como já fiz de quase tudo para me destruir, o corpo sofrendo os danos. De como eu pensava que cicatrizes aplacavam a dor. De como eu lutava para ser diferente quando na verdade era mais um chamado profundo de uma menina que precisava de amor e atenção. Lembrei de como nadar no álcool parecia sempre a melhor alternativa. Dormir parecia a melhor alternativa. De como não sentir mais meu corpo era tudo que eu queria, não admitir que eu merecia sair das profundezas, ser feliz. De como eu projetava todos os meus ideais para nunca ter que viver na realidade e me decepcionar, sem me tocar que dessa forma eu me decepcionava mais ainda.

"This is something I know: damaged women? We don't think we deserve kindness. IN fact, when kindness happens to us, we go a little berserk. It's threatening. Deeply. Because if I have to admit how profoundly I need kindness? I have to admit that I hid the me who deserves it down in a sadness well."

Lembrei de como é difícil ser uma garota. Desempenhar os tão limitados papeis de menina, filha, irmã, mulher. De como ninguém nasceu para representar papeis que já vem impostos e de como isso causa dificuldades imensas. Lembrei de como é difícil não saber o que fazer com todos os desejos, emoções e experiências tolhidos pela sua condição feminina. Lembrei de como eu nunca tinha me dado a chance de me sentir bonita ou especial. Lembrei de como é crescer em uma família silenciosa mas cada vez mais tomada pelos gritos. De como a criatividade me mantinha segura e dava sentido para as outras coisas. Lembrei que palavras como "pais" são capazes de destruir tudo aquilo que você acreditava sólido.

"A little bit outside of things is where some people feel each other. We do it to replace the frame of family. We do it to erase and remake our origins in their own images. To say, I too was here.” 


No final, lembrei de como tudo é tão líquido e de como eu aprendi isso cedo.

A cronologia da água vem dessa metáfora sobre como as rochas são pedaços de tantas coisas que já foram e não existem mais, mas ainda estão aqui, como nós e nossas histórias, fragmentadas, indo e vindo como ondas.

"You will see you have an underlying tone and plot to your life underneath the one you’ve been told. Circular and image bound. Something near tragic, near unbearable, but contained by your irreducible imagination - who would have thought of it but you - your ability to metamorphose like organic material in contact with changing elements. The rocks. They carry the chronology of water. All things simultaneously living and dead in your hands."

Em 2009 eu escrevi em um texto: "Talvez porque no registro as coisas tomem forma e ocupem determinados lugares, não sejam apenas vibrações energéticas se cruzando e confundindo. Mas pobre de mim quando acho que escrever organiza alguma coisa. Só alivia a vida." E nesse livro a Lidia escreveu: "Language is a metaphor for experience. It's as arbitrary as the mass of chaotic images we call memory-but we can put it into lines to narrativize over fear."

As histórias da Lidia chegam em outros níveis, eu nem poderia imaginar me comparar, mas acho que é quase impossível não se identificar. Eu também sempre acreditei na arte como algumas pessoas acreditam em deus. A arte me mostra que eu nunca estive sozinha, que há recomeços, ciclos, pessoas que te entendem e te entenderão por mais alto ou mais baixo que você esteja. Que família é algo que você cria. Das profundezas das profundezas, há sempre alguém que já passou por ali e te deixou o caminho iluminado - ainda difícil, mas visível.

“If I could go back, I'd coach myself. I'd be the woman who taught me how to stand up, how to want things, how to ask for them. I'd be the woman who says, your mind, your imagination, they are everything. Look how beautiful. You deserve to sit at the table. The radiance falls on all of us.” 

Esse livro é um exemplo disso. Poderia dizer que me deixou sem ar mas, na realidade, me fez tomar fôlego. 
E flutuar nesses vários âmbitos que eu sei que posso chamar de casa. 
Palavras, água, amor.

Obrigada, Lidia :)

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